Boas vindas

Seja bem-vindo, caro leitor/escritor. Ler faz bem à saúde - física e mental. Sabendo disso, obrigo-me a tomar cavalares doses diárias de leitura. Como tudo que é exagerado faz mal, preciso eliminar parte desse remédio para manter meu organismo saudável. Não há pâncreas que produza qualquer enzima capaz de catalizar a leitura, ou fígado capaz de ajudar a excretar o excesso. O melhor tratamento, descobri, é escrever. Crimine Liber, portanto, tem a nobre e terapêutica missão de aliviar a pressão provocada pelas doses de leitura, além de fazer despejar aquilo que meu organismo absorveu de melhor ou pior dos livros que li, tenho lido ou vou ler. Espero que você aprecie!!!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Paranoide será publicado pela Caligo Editora



Finalmente, depois de dois anos de papel, tinta, suor, leituras e releituras, meu romance Paranoide encontrou um lar. Será publicado no primeiro semestre de 2013 pela Caligo Editora. Tudo novo, casa nova, autor novo, romance novo, vida nova.

Como tempo publicarei informações do processo de publicação, trechos do livro, capa, informações para que os leitores comecem a tomar gosto pela 'coisa'.

E quando chegar a data, você ficará sabendo informações sobre o lançamento.

Por enquanto, é isso!

https://www.facebook.com/CaligoEditora

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sherlock Holmes - Aventuras Secretas




Cotação: &&&&
Livro: Sherlock Holmes – Aventuras secretas (antologia de contos)
Organizado por: Carlos Orsi e Marcelo A. Galvão
Editora: Draco
258 páginas

Eu gosto muito de contos, acredito que pelo mesmo motivo que a maioria das pessoas. São rápidos, portanto podem preencher tranquilamente o tempo perdido no metrô. São textos coesos e concisos. Podem ser a porta de entrada de muitos escritores talentosos no mercado. Foi, portanto, sem muito esforço que um amigo me convenceu a comprar esse surpreendente livro.
O que me preocupa em uma antologia de contos escritos por autores diferentes é que, em sua maioria, a qualidade dos textos é muito acentuada. Não é o caso aqui. Tive sorte quando escolhi aleatoriamente o primeiro deles (O sexto do livro. Nunca leio na ordem apresentada): A aventura do Penhasco dos Suicidas, de Alexandre Mandarino. A pequena história é fiel aos traços elegantes de Sir. Conan Doyle. Tem humor, uma investigação instigante e um final nada elementar.
Minha segunda experiência foi, da mesma forma, agradável. O primeiro conto do livro, A aventura do americano audaz, de Octávio Aragão, é divertida e fora do comum, nem por isso menos sólida do que se espera do texto que abre uma antologia. A propósito, conheci o autor pessoalmente no lançamento do livro. Além da pena afiada, é uma pessoa que vale a pena conhecer.
Segui o conselho de outro amigo e como terceiro prato, parti para o ‘O caso do detetive morto’, uma pérola. O autor, Cirilo S. Lemos, é uma das jovens boas promessas da literatura brasileira. Na minha opinião, o melhor conto do livro deixaria o pai de Sherlock orgulhoso.
A história é inventiva, faz referências oportunas ao conjunto da obra de Conan Doyle e traz sacadas ótimas como “(...)Talvez o ocaso de um homem sem descendência seja, também, o ocaso dos elementos que compõem sua vida.”
E o livro segue na mesma linha, com a mesma qualidade, até o final. Pra quem gosta de policiais clássicos, esse é um lançamento indispensável. Para quem não gosta, é uma boa oportunidade de começar a gostar.
Vale mencionar o trabalho muito bom da editora e a qualidade do material, especialmente a gramatura das folhas e a diagramação perfeita. Perde ponto apenas em alguns pequenos furos de copidesque, mas que em verdade não fazem a menor diferença.
Comentário tolo: Não consegui desvendar nenhum dos mistérios, o que não é lá muita vantagem já que nunca fui muito bom nisso.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Lançamento: Na fronteira da realidade de Gabriel Billy




Olá leitores,

Meu colega Gabriel Billy convida para o lançamento do seu romance de estréia ‘Na fronteira da realidade’ pela editora Torre, que acontecerá na próxima quarta-feira, dia 25 de janeiro de 2012, às 19:00 h, no Boteco Salvação, na Rua Henrique de Novaes, nº 55, Botafogo, Rio de Janeiro.

Não li o livro, mas pelo que assisti do book trailer e pelo que li da resenha, parece uma excelente obra. Boa oportunidade para conhecer um novo autor brasileiro. Estarei lá!!!
 
Abaixo o link para o book-trailer:

Na fronteira da realidade - book-trailer

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Atraso

Queridos e raros leitores,

Faz tempo não posto sobre um novo livro, mas há uma explicação: os tempos estão difíceis.

Estou terminando um romance; uma obra interminável se apoderou da minha casa; estou dividindo o tempo entre o trabalho, a obra e o romance; não consegui concluir nenhuma leitura nos útlimos dois meses; extraterrestres vampiros invadiram a Tijuca; dinossauros destruíram a rede de fibra ótica que dá acesso à internet e a obra do metrô só terminará em janeiro de 2014 (ha ha).

Tá bom, é pouco, mas estou um tanto atarefado (especialmente combatendo os extraterrestres). Prometo até o final do ano publicar resenha de dois (ótimos, dizem) romances que me chegaram às mãos.

Até lá sugiro duas excelentes leituras no Blog da Companhia: http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/12/10-pedidos-de-fim-de-ano-para-o-meio-literario/ e http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/10/fui-ate-a-janela-e-olhei-para-a-lua/

É tudo, por enquanto, se é que interessa a alguém.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sinuca embaixo d'água


Sinuca embaixo d'água


Cotação: §§§§
Livro: Sinuca embaixo d’água
Autor: Carol Bensimon
Editora: Cia. Das Letras

136 páginas


Estou meio atordoado até agora, tentando entender o que está acontecendo com o Rio Grande do Sul. Nos últimos meses conheci ‘novos’ autores gaúchos que conseguiram mudar minha rota de leitura, de tal forma, que não controlo mais minha ansiedade enquanto espero por outra novidade. Carol Bensimon foi a última.

Acompanhava muito satisfeito sua coluna quinzenal no Blog da Companhia (Blog da Companhia/Carol Bensimon), mas como a pilha de livros por ler anda tocando o teto, comprar seu romance de estréia nem passava pela minha cabeça. Lia a coluna, sentia vontade de comprar o livro, olhava para a pilha, lia a coluna, sentia vontade de comprar... comprei. Nem chegou a descansar na estante.

No mesmo dia, para ser exato, no mesmo instante em que comprei o livro, sentei para tomar um café e comecei a ler as primeiras páginas. É chiclete, impossível de limpar da mente! Depois do trabalho, voltei lendo no metrô, li antes de dormir e não parei mais até terminar. A qualidade da cronista (colunista) eu conhecia, da escritora eu suspeitava, mas só agora posso atestar. Que descoberta (pessoal)! Mas, vamos ao livro, depois volto à escritora e aos gaúchos.

O curto romance tem muitas qualidades, a começar pela narrativa original. A partir de um acidente de automóvel em que morre a jovem Antônia, acompanhamos a transformação na vida de diversos personagens ligados a ela de alguma forma. A história se desenvolve com as reflexões de cada um desses personagens, que buscam compreender desde as causas do acidente passando pela importância de Antônia em suas vidas, chegando até uma nova etapa em que, agora, tudo é diferente.

Difícil, para cada um deles à sua maneira, é aceitar a modificação súbita, mais interna que externa, provocada pela perda de uma pessoa próxima e querida. E essa quebra de ritmo, essa mudança de planos inesperada e imutável é o que aproxima os personagens espalhados pela vida da jovem.

Ponto especial do livro é a ‘verdade’ que pula das páginas, provocando no leitor a sensação quase real de assistir uma partida de sinuca no Bar do Polaco, com um copo de cerveja e um cigarro nas mãos ao som de Guns n’ Roses, dada a clareza da ambientação, com um detalhamento sem exageros, mas preciso. E a sensação é agradável, a despeito do luto constante do livro.

Mais qualidades, os personagens são muito bem elaborados. E são muitos (sete), de classe social e formação cultural bastante diferentes. A linguagem simples e coloquial (proposital) faz o leitor notar as diferenças sem esforço, o que não é fácil de conseguir.

Outra, para quem foi jovem, ou adolescente, nas décadas passadas, há um enxame de referências musicais e literárias que ajudam a levar esse leitor em especial a compreender, talvez mesmo sentir, o que sente cada um deles.

E por aí vai Carol Bensimon costurando uma história comovente, realista e muito bem contada, o que me faz voltar à atual cena literária gaúcha questionando o que faz o Rio Grande do Sul para surgir tão bons autores numa mesma safra. Talvez seja o chimarrão, que já incluí na minha dieta.

Detalhe legal, Carol foi finalista do prêmio São Paulo de literatura, Jabuti e Prêmio Bravo!, com Sinuca embaixo d’água.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O filho eterno




Cotação: §§§§§
Livro: O filho eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Record

222 páginas

Todos nós conhecemos a sensação de um dia, subitamente, acordarmos e deparamos com uma imagem desagradável no espelho. Com uns é mais frequente, com outros, menos. Pois essa sensação me assaltou quando li a última das 222 páginas de ‘O filho eterno’, e no curso de cada uma delas também.
O livro, vencedor de inúmeros prêmios (Jabuti, São Paulo, Portugal-Telecom, entre outros), foi o meu espelho e, mesmo feia a imagem, passo a defendê-la, ou justifica-la, ainda que aos tropeços, como faz o narrador. Talvez defender o pai egoísta (?) que renega, ou tenta renegar, até o último argumento uma verdade inafastável, seja defender a mim mesmo. Talvez o seu egoísmo e o seu cinismo diante da realidade simples, mas cruel, seja o meu. Não sei, mas o impulso é inevitável.
De tudo, o que restou da minha imagem feia diante do espelho foi a verdade; algum dia acordamos e notamos que o cabelo está despenteado e babamos a noite toda, estamos (somos) feios. O livro de Tezza me tirou do sono (sonho) profundo e me pôs diante do espelho, e serei eternamente grato a ele por isso.
Da história basta saber que um homem (no início do livro ele ainda não é um pai) espera pelo primeiro filho. Ele imagina o filho perfeito como imagina a si próprio e conclui que um filho é aquilo que esperamos do filho, portanto, seu caminho está traçado. Mas não é. Seu filho tem Síndrome de Down e, a partir dessa notícia, a vida que levava deitado sobre uma cama de ilusões muda de perspectiva. O colchão fura e o ar do idílio dá lugar aos tijolos da realidade.
Tudo gira em torno de como o pai vê o filho e sua importância e a importância da Síndrome em suas vidas que vão seguindo impossíveis de ser freadas, ou alteradas. Suas frustrações começam a aflorar amontoando-se uma sobre uma e, amadurecendo o pai, começamos a perceber que não se trata de egoísmo, e sim de insegurança, frustração, o medo do tal espelho. Não se trata de crueldade, e sim do desespero de descobrir que as coisas jamais poderiam ser o que não foram (como teoriza o próprio pai ao longo de todo o livro) e isso incomoda. Trata-se de acordar e notar que seu rosto (pelo menos às vezes) é mais feio do que você supunha e isso machuca.
Em certos momentos tive a impressão esquizofrênica de que o autor invadiu minha cabeça e descobriu alguns dos meus segredos inconfessáveis, angústias e inseguranças que parecem uma marca de nascença contra a qual não há cirurgia de remoção. Acho que isso não aconteceu, mas é tão impressionante a sinceridade com que a narrativa se desenvolve que sua qualidade está nisso, e a difere da maioria dos livros, é uma história verdadeira, sob muitos aspectos, e por isso é tão profunda, tão relevante.
Lembro alguns livros que foram importantes na minha vida (alguns segredos inconfessáveis): O pequeno príncipe, O menino maluquinho, As aventuras de Tom Sawyer, O piano e a orquestra, Antes do Baile Verde, O estrangeiro, 1984, Libertinagem & Estrela da Manhã, O Cortiço. Todos em momentos e por motivos diferentes, não mudaram, mas ajudaram a construir o que eu sou e ‘vim sendo’. ‘O filho eterno’ entra nessa galeria pessoal, e a partir dele enxergo outro rosto no espelho.

Lado B - Histórias de mulheres




Cotação: §§§§
Livro: Lado B - Histórias de mulheres
Autor: Lúcia Facco
Editora: Edições GLS

98 páginas
 

Você já leu algum livro de temática gay? Não? Então deixe o preconceito de lado e comece por esse delicioso livro de contos. São doze pequenas histórias das quais se pode dizer, no mínimo, agradáveis. Um álbum com ‘fotografias’ quase comuns e, por isso, belas do cotidiano de mulheres homossexuais.

Não é panfletário, 'catequizador' ou cômico, embora suas personagens em alguns momentos possam ser. Não se busca nas narrações nada além de mostrar a normalidade evidente de um ‘comportamento’ tão contestado (ainda?!?!), quanto antigo.

E vai-se passeando por vidas comuns com boas histórias, e algumas tão comuns que a ‘opção’ sexual torna-se irrelevante (são pessoas como você, vivendo histórias que você poderia viver). Certo, em alguns casos a sexualidade é a pedra fundamental sobre a qual se constrói uma grande casa. Mas em outros, não. Essa é a maior qualidade do livro, Lúcia Facco conseguiu conceber contos (que não gostaria de rotular como literatura lésbica, mas de fato é) com uma naturalidade de quem viveu os conflitos, o preconceito, a estranheza alheia, e vive a normalidade, os desafios, as barreiras de um homossexual no moderno-atrasado mundo contemporâneo.

Dessas bonitas ‘Histórias de mulheres’ extrai o que mais importa que é a vida por ela mesma, seja você hetero ou homo, e suas dúvidas, aventuras, segredos, recompensas, amores, desilusões, sucessos, decepções.

De todos os doze contos alguns sobressaem como merecedores de vivas; aplausos empolgados. Natureza Viva é um deles.

O conto, que eu classificaria (porque classificar alguma coisa?) como realismo fantástico, é dos melhores contos que li ultimamente, se não o melhor. Nele, o homossexualismo é um fio que surge de uma experiência visual interessante e puxa toda a falsa impressão de normalidade na vida da protagonista que até então se pensa heterossexual. O clima é um tanto sombrio e a tensão é crescente, até o final revelador e não menos fantástico que toda a ilusão (será?) vivida por Raquel. É suspense em essência, se você compreender por suspense algo que te deixa à espera, em suspenso, por um tempo, até te derrubar.

Outra história digna de prêmio é ‘De mel de melão’. Curtinho, por isso uma resenha detalhada seria um belo spoiler. O que posso dizer é que se trata de uma narrativa comovente, que mexe muito com o leitor armado, preparado para encontrar nesse livro algo que imagina deslocado, fora da rota comum. É um soco no estômago do conceito pré-elaborado. Lindíssimo e emocionante, choca (pelo menos a mim) não pela história que, garanto, todos conhecemos (não por ouvir falar), mas por fazer notar que por mais escondido que seja o preconceito está sempre ali, como um vírus em quarentena para aflorar quando menos se espera, já que o final é diametralmente oposto àquilo que se imagina e revela a nós mesmos (leitores) quem realmente somos.

Por último (apenas para não alongar a resenha), tem ‘Diário’. Conto que integrou o premiado livro ‘Todos os sentidos: contos eróticos de mulheres’ (Prêmio Alejandro J. Cabassa da União Brasileira de Escritores como melhor livro de contos de 2004). Notável ao narrar a história de uma mulher viúva, mãe de família, com uma vida estabilizada que aos poucos se descobre homossexual e, partir daí, começa a narrar suas aventuras (reais ou ilusórias você deverá descobrir) em um diário, e que aventuras! Tem o tom mais ficcional que biográfico e, na minha opinião, daria um excelente filme de Almodóvar.

Outros bons contos que poderiam ser aqui resenhados são ‘Chuva’, ‘Triângulo’, ‘Vida’, ‘Ausência’, enfim, qualquer um deles, que são todos muito atraentes em suas diferenças.

Aconselho a todos que conheço a ler o agradável ‘Lado B – Histórias de mulheres’, sem medo, afinal homossexualismo não é uma doença, não é contagioso, é comum, é normal, ou então se conforme em perder uma grande leitura somente porque você é um(a) fresquinho (a).

Dois irmãos



Dois irmãos


Cotação: §§§§§
Livro: Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras

266 páginas
 
Dois Irmãos é um daqueles livros que te dá orgulho de saber ler; faz você agradecer eternamente a ‘tia’ do CA pelos ensinamentos da alfabetização. Publicado em 2000 e laureado com o Jabuti, é considerado por muitos o melhor romance da década passada, o que não é exagero.
Somos – muitos de nós – movidos por informações valiosas a respeito daquilo a que pretendemos nos entregar. O consumo, as amizades, o emprego, até mesmo o amor, quase sempre dependem de informações positivas acerca daquilo que pretendemos ‘possuir’. Com a leitura não é diferente. Daí que, quando comecei a ler comentários elogiosos sobre ‘Dois irmãos’ fiquei com uma vontade incrível de ler o livro, mas não li; estava em outra onda.
Passaram muitos anos até que voltei a ler a seu respeito em colunas e blogs, já não mais falando de um grande livro, mas sim a respeito do livro da década. Não resisti e me entreguei, para minha própria sorte.
O livro trata da saga de uma família de imigrantes libaneses que começa a fincar raízes no Brasil, precisamente em Manaus (terra natal do autor), e esse é o primeiro ponto interessante: o autor trata com precisão o choque cultural que forja a identidade familiar a partir das muitas experiências vividas por um jovem caixeiro libanês e uma jovem filha de comerciante que se apaixonam vorazmente.
Desse amor imenso se espera tudo de melhor, a partir de uma entrega comovente dos amantes. No entanto, o que seria uma consequência natural da sua união – os filhos – se torna a grande marca divisora de sua paixão, começando pela relutância do jovem caixeiro em ter filhos.
O nascimento dos primeiros filhos – gêmeos – é o ponto de virada de uma história, que poderia levar o nome do pai, o nome da mãe, o nome dos filhos, da filha, do narrador, ou sua mãe (uma cunhatã que presta serviços à família), dada a profundidade da investigação sobre a família, em que cada um dos personagens é examinado à exaustão, expondo suas motivações, expectativas, personalidades, vivências...
O duelo épico e eterno entre os gêmeos que se odeiam – assaltando Nelson Rodrigues: desde quarenta minutos antes de serem concebidos -, porém, marca tão decisivamente essa família ao mesmo tempo atípica e comum, que a escolha do nome é perfeita.
No tom quase documental-biográfico da obra não há certo ou errado, não há julgamento de valor, preferências (exceto a do narrador, mas esse também é um personagem), apenas uma exposição de fatos e motivos que vão se sucedendo e explicam a cada novo parágrafo o ódio recíproco dos irmãos.
Daí que a família vai atravessando meio século esfarelando o que havia de bonito no amor primordial dos pais para chegar ao final sem uma única sobra do que havia antes. Tudo visto sob a perspectiva de uma criança que, ao final já é um adulto em busca da verdade sobre si mesmo, sua própria identidade.
Personagens como Halim (o pai), Rânia (a irmã) e Domingas (a cunhatã) tentam roubar a cena (são perfeitos!), que ao final fica mesmo com os gêmeos Yaqub e Omar e suas diferenças essenciais. O primeiro introspectivo e renegado, o segundo mimado e impulsivo, de personalidades opostas e confrontantes que levam ao limite máximo o ódio com que presenteiam o outro.
Se é o melhor livro da década passada, não sou capacitado para responder. Mas, certamente, é dos melhores livros que li nas últimas três décadas, desde que aprendi a ler com a tia... como é mesmo o nome dela? A ingratidão é imperdoável.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Dom do Crime



Cotação: §§§§
Livro: O Dom do Crime
Autor: Marco Lucchesi
Editora: Record

155 páginas






Não sou um estudioso das letras; longe disso. Sou um aspirante a escritor que gosta de ler. Não conheço os pilares da obra de Machado, tampouco sei avaliar tecnicamente cada um de seus romances, contos, crônicas... o que sei, ou melhor, o que gosto de fazer acerca dos livros que li é emitir opinião; apenas isso; procurando ser o mais simples e honesto possível.

Isso nada importa a quem, por lapso, termina nas páginas desse blog, eu bem sei. Mas é necessário escrevê-lo antes de abordar o grande romance sobre o qual me debrucei nas últimas semanas, porque O Dom do Crime não é um romance qualquer. É, antes, uma grande obra de um grande autor brasileiro, por quem o Bruxo certamente nutriria grande simpatia.

Não zarpei em pesquisas pela internet para descobrir se de fato o crime da Rua dos Barbonos aconteceu, em 06 de novembro de 1866. Sinceramente, isso pouco me importa. O que vale é a ‘audácia’ de Marco Lucchesi, que esculpe uma elaborada trama para relacionar o tal crime (narrado no livro) à obra mais famosa de Machado de Assis: Dom Casmurro.

Com inventividade elogiável, Lucchesi escreve pelas penas de um anônimo contemporâneo de Machado, que insiste em manter o anonimato e a quem, segundo o próprio autor, não se pode dar crédito. É precisamente esse jogo entre os autores (o da ficção e o da obra) e a ‘autoria’ que dá gosto ao romance.

Em forma de relato diário do julgamento de um crime que provocou comoção na Corte Imperial no final do século XIX, o autor (ou os autores) disseca não apenas o comportamento social da época, como também vai apresentando pontos comuns entre o crime e a história de Bentinho, Capitu e seus pares. E esses pontos são muitos e estreitos.

Mas isso também pouco importa, sua maior virtude é manter a dúvida imaculada, manter-se imparcial acerca do comportamento dúbio (será?) de Capitu ou de Helena Augusta (essa a vítima do crime ‘real’).

E vai extraindo trechos de obras, comparando, misturando, acrescentando tantas e tantas informações que ao final obras, autores, ficção, realidade estão tão condensados que se tornam uma única coisa.

Ressalte-se o tom irônico, beirando o cínico (do próprio autor), que impregna o texto com um humor refinado o qual somente grandes autores alcançam.

Eu, por mim, que como disse não sou estudioso ou entendido, mas gosto de emitir opinião, permaneço com a mesma: se o Bentinho é corno ou não, não sei dizer. Mas que ele merecia, merecia.

Marco Lucchesi é Imortal e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2011, na categoria romance de estréia com O Dom do Crime.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Talk Show



Cotação: §§§§
Livro: Talk Show
Autor: Arnaldo Bloch
Editora: Companhia das Letras

119 páginas

Mantendo a ideia de escrever sobre livros com crimes, de conteúdo não necessariamente policial, vou falar um pouco de ‘Talk Show’ de Arnaldo Bloch (esse não tem nada de policial). Tive o privilégio de conhecer o autor pessoalmente no último mês (um sujeito gentil, não direi mais nada a seu respeito para não soar como bajulação) e conversar sobre o livro.

A minha primeira impressão foi a de estar diante de um filme de David Lynch, mas eu odeio o David Lynch e todo aquele seu pedantismo pseudo-intelectual. Como, então, explicar que tenha gostado do livro sem despertar nas pessoas a certeza de que fui irremediavelmente aferroado pela mosca do puxa-saquismo? Simplesmente não devo explicações a ninguém, portanto...

O fato é que há muitas semelhanças e diferenças entre a boa obra do Bloch e do audacioso diretor americano, a quem a partir desse ponto deixo um pouco de lado. A primeira virtude do autor é a linguagem. Muito bem escrito, como era de se esperar, o livro apresenta uma linguagem simples e desempolada, por isso mesmo elegante.

Apesar disso, no início tem-se a impressão de que se está diante de uma leitura pesada. Não é verdade. Os capítulos são muito curtos (há capítulos de uma página), tão curtos que suspeito que possuam outra classificação (não seriam capítulos, talvez versículos), o que ajuda o leitor, porque a trama, bem, a trama é bastante intrincada.

Bloch, de forma bastante incomum e original, nos apresenta a história logo nas primeiras páginas contando a biografia do personagem principal. Não é nenhum spoiler, ao contrário, serve para esclarecer e confundir, e é isso que o romance faz até o final, esclarece e confunde, clareia e escurece, informa e desinforma até o leitor entrar em um estado de torpor tão grande que já não sabe o que é realidade e o que é farsa (mas isso pouco importa e suspeito de que essa seja a vontade do autor).

O personagem principal, que pode ser dois, é um escritor famoso com um passado muito obscuro, (em termos, uma vez que sua história é apresentada nas primeiras páginas, ou não), quase mítico, que ao alcançar o auge de sua carreira opta por se recolher e viver quase entocado. Sua vida misteriosa está prestes a ser completamente revelada por um jornalista que suspeita da verdadeira identidade do escritor.

O livro é narrado no presente, quando tudo está para ser resolvido na vida do personagem, mas toda a evolução de sua carreira é contada habilmente, justificando os acontecimentos. Variações temporais, mudanças de perspectivas, de referências, personagens que parecem se desdobrar em personalidades distintas, tudo isso confunde o leitor no início e termina numa explosão, numa confluência perfeita em que se descortina uma verdade que poderia muito bem ser outra, ou será que é outra.

Todo o conjunto me fez pensar em David Lynch, um diretor de quem não gosto, ao final de uma leitura da qual gostei muito, o que me leva a concluir que Arnaldo Bloch escreveu com muita perícia a história que o diretor americano gostaria de ter criado.

Obs: Apenas como sobremesa, o autor descreve uma deliciosa receita ao final do livro, mas temo pela liberdade dos que ousarem torná-la real.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Coronado



Cotação: §§§
Livro: Coronado
Autor: Dennis Lehane
Editora: Companhia das Letras

197 páginas

Estou dando um tempo de romance. Na verdade estou lendo dois ao mesmo tempo, mas com bastante parcimônia, pois tenho trabalhado bastante. Em tempos de pressa, uma boa opção é um livro de contos. Para não fugir ao gênero, escolhi esse belo presente da Companhia das Letras aos leitores brasileiros, uma pérola não muito difundida do autor de ‘Sobre meninos e Lobos’ e ‘Gone, Baby, Gone’, que descobri por acaso, à cata de coisas mais curtas para ler. Não me arrependi. Ao todo são cinco contos e uma peça baseada no último – e melhor – deles.
O primeiro conto (Ficando sem cachorros) é um tanto longo, conta uma trama bem elaborada que renderia, tranquilamente, um bom romance. Muita psicologia, morte, final trágico inevitável. Mas não é dos meus preferidos.
No terceiro, na minha opinião o mais fraco, Lehane se dedica com afinco à tensão psicológica, investindo pesado numa realidade que parece conhecer bem, e é cada vez mais presente na literatura americana, um punhado cheio de desilusão social.
O Quarto, ‘Cogumelos’, é bem interessante. Como o primeiro, renderia um ótimo romance, mas ficou no conto. O forte dessa short storie são os cortes de tempo. Muito vai e vem, o que poderia (pra variar) terminar no cinema.
Vamos aos favoritos.
O segundo conto chama-se ‘UTI’. Trata-se do conto mais tenso do livro. A minha impressão é a de que o autor quis ‘brincar’ com paranoia e ilusão. Criou um belo personagem, bastante neurótico, que escolhe um local um tanto inusitado para escapar de uma perseguição que a princípio parece coisa da sua mente, e ao final se torna bastante real. Ou será o contrário. Leia!
Por fim, o espetacular ‘Até Gwen’. É perfeito em tudo. Nos cortes de tempo. Nos personagens complexos e bem construídos. Na trama bem elaborada. Na clareza que Lehane imprime na folha de papel arrancando o leitor de onde ele está e o lançando no meio do nada, entre vidas perdidas, mal resolvidas, que caminham para um final catastrófico. A vida como ela é.
O conto é tão bom e foi tão bem recebido, que Lehane cometeu o erro de querer transformá-lo em peça. Bom, mas como eu não sou a Bárbara Heliodora, prefiro me abster de comentá-la (ela está lá, fala por fala, cena por cena, no final do livro). Exceto o fato de que, na peça, ele explica o que no conto nem precisava explicar.
É uma boa compra. O livro, não o ingresso para a peça.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Porta de Bronze e outros contos




Cotação: §§§§
Livro: A Porta de Bronze e outros contos
Autor: Raymond Chandler
Editora: Record

234 páginas

O pai do aclamado detetive Philip Marlowe dispensa comentários. Senta-se ao lado de Hammett na mesa dos criadores dos romances noir e sua obra, menos extensa do que gostaríamos, é recheada de obras primas. Aqui nesse apanhado de contos, a editora Record nos presenteia com o que há de melhor e mais variado dentre os contos desse brilhante autor norte-americano.
O que mais gosto em Chandler, sua insuperável capacidade de descrição – seja personagem, seja objeto, seja um lugar, Chandler descreve tão minuciosamente bem que temos a impressão nítida de estar observando aquilo que ele descreve - é precisamente o que ouço como argumento de muitos colegas que não são, digamos, muito fã do cara. Já eu, me delicio com sua narrativa, que acho ágil sem ser descuidada.
Como todos os louros são poucos, deixemos de lado a puxação de saco e esqueçamos a obra e o autor como um todo. O que vale, então, é avaliar a reunião de contos proposta pela editora, e essa foi bastante feliz.
A capa é interessante, mas a impressão poderia ser melhor. Já os textos são a fina flor da obra de Chandler. A começar pelo conto que dá nome ao livro. Porta de Bronze não é exatamente um conto policial, não um policial clássico. Tende a se inclinar para o lado do suspense, do sobrenatural, mas é fantástico. O clima noir fica claro desde o início e nas primeiras linhas você já não tem dúvida de que está lendo o grande texto de um grande autor. Tem um dos melhor primeiros parágrafos que eu já li.
‘Vou esperar’ é outro conto que merece destaque, esse já classificaria mais para o gênero policial e apesar do final ser menos surpreendente do que mereciam os leitores e a trama ser menos interessante que a do o primeiro, é uma bela experiência, se não uma leitura nova, ao menos uma leitura proveitosa, do ponto de vista da própria escrita.
Por fim, a leitura de ‘Verão Inglês’ é indispensável. Um conto afiado em que Chandler, propositadamente despido dos vínculos ‘matrimoniais’ que mantinha com a literatura policial (ao menos à primeira vista), pode demonstrar sua veia sarcástica, disparando especialmente na direção dos Súditos de Elizabeth II. Parabéns a Record pela seleção eclética e bem elaborada.
E se durante a leitura você sentir uma bruma tomando conta do ambiente, a luz do abajur fremir fracamente, ouvir passos e a campainha tocar inesperadamente, não se assuste. A culpa é do Chandler, que te leva a ficar em dúvida se é você que está dentro do livro, ou o livro que se tornou realidade.

Tequila Vermelha




Cotação: §§§§
Livro: Tequila Vermelha
Autor: Rick Riordan
Editora: Record

428 páginas

Eu não queria começar dizendo que o cara escreveu uma série de romance best seller (mais de dez milhões de livros vendidos pelo mundo) sobre um adolescente com poderes mágicos inspirado na mitologia grega porque isso, além de me cansar, me entristece gravemente (sorte a do Sr. Richard Russel Riordan Jr, competente o suficiente para produzir mais uma dessas séries para adolescentes que a gente não sabe dizer se é ruim por uma infinidade de argumentos ou boa por um único argumento – leva jovens leitores às livrarias).
Mas a verdade é que antes de escrever para adolescentes nerds cheios de espinha na cara o sujeito produziu uma bela série policial, com um dos personagens mais divertidos da atualidade (detetive Tres Navarre) e uma bela trama no livro de estréia, esse ‘Tequila Vermelha’ do título.
O que me impressionou, para começo de conversa, é que o autor conseguiu elaborar um início bastante forte e instigante, mantém o ritmo e o interesse no curso nas inacreditáveis 418 páginas, e termina da forma como começou, forte, interessante e surpreendente.
A história é tão bem engendrada, costurada e ocultada, que o leitor vence os capítulos com relativa facilidade. Apesar do grande numero de páginas, vale ressaltar que os capítulos são curtos, os diálogos inteligentes e recheados de sarcasmo, e a narrativa é leve, apesar de violenta, o que prende o leitor desde o início.
Voltando ao detetive Tres, os traços de sua personalidade são bastante originais, e variam de uma leve tendência à depressão e à solidão a um divertimento difícil de se encontrar nos dias de hoje. Nada daqueles homens chatos cheios de conflito interno. Ele é o cara (explicando rapidamente o nome, coisa que achei muito legal, Tres vem de três, já que o rapaz é o terceiro da ‘dinastia’ Navarre a se chamar Jackson).
Já a trama se passa em San Antonio, Texas, terra natal de Riordan, onde há uma forte influência mexicana e para onde regressa Tres após dez anos afastado da cidade, quase exilado em São Francisco, depois que seu pai, o delegado de polícia local, é assassinado na sua frente. O detetive particular sem licença retorna disposto a retomar um relacionamento amoroso do passado que ressurge e a descobrir definitivamente o que motivou o assassinato do pai. Não esperava, contudo, que ambos (a retomada do namoro e a morte do pai) pudessem ter qualquer espécie de vínculo.
Tudo fica muito claro à medida que o texto se desenvolve, mas da melhor forma possível, aos poucos, sutilmente, quase imperceptível, tudo recheado com um sarcasmo cru inspirador.
O difícil é pensar nos motivos que levaram os estúdios de Hollywood a optar pelo Jackson semideus, ao invés do Texano, muito mais divertido e inteligente. Mas no final isso não importa. Ao menos a Record nos fez o favor de publicar, quase quinze anos depois do lançamento nos EUA, esse excelente livro, numa edição muito bem feita com tradução perfeita.
Então, compre o seu, sirva uma dose de tequila com Coca-Cola, e erga um brinde a Riordan!

segunda-feira, 23 de maio de 2011



Cotação: §§§§§
Livro: Diário da queda
Autor: Michel Laub
Editora: Companhia das Letras

151 páginas

Algumas coisas que sei (ou acho que sei) sobre Michel Laub.
Nasceu em Porto Alegre, pouco antes de mim. É escritor e jornalista. Antes de escrever ‘Diário da queda’ publicou quatro romances. Foi finalista do prêmio Jabuti e do prêmio Portugal Telecom, com o romance ‘O Segundo Tempo’. Mas para saber disso basta comprar o livro resenhado e ler a orelha.
Coisas que eu não sabia sobre Michel Laub.
Como nunca tinha lido nenhum livro de sua autoria, não sabia que o cara é um baita escritor. Nunca li matérias, entrevistas, contos, escritos por ele. Mas de um tempo pra cá tenho acompanhado com grande admiração sua coluna mensal no ‘Blog da Companhia’ (http://www.blogdacompanhia.com.br), em que senta ao lado de figuras importantes do meio editorial, escritores consagrados e jovens expoentes.
Não é só o domínio da língua (impecável) que vem me deixando entusiasmado com seus textos, mas seu controle raro sobre a linguagem, seu jeito muito próprio, bastante autêntico, de contar uma história, de expressar suas ideias, de colocar seu ponto de vista, enfim, foi uma descoberta e tanto pra mim, que aconteceu de modo bastante comum. Li uma resenha do ‘Diário...’ no caderno ‘Prosa & verso’ do jornal O Globo (peço perdão por não lembrar o autor da resenha), me interessei, procurei em algumas livrarias, e depois de alguns dias encontrei um exemplar, comprei e deixei sobre a pilha interminável de livros por ler.
Coisas que sei sobre mim.
Desenvolvi uma espécie de doença tardia, que costuma acometer adolescentes ou jovens adultos, e leva a pessoa viciar em qualquer livro do gênero policial. Como ‘Diário da queda’ está longe de figurar em uma prateleira ao lado de clássicos da Agatha Christie, Dennis Lehane ou Rubem Fonseca, era provável que dormisse alguns meses na pilha da estante bagunçada do meu quarto. Houve, entretanto, uma inesperada mudança no meu quadro clínico. Depois de muito tempo me dedicando à leitura de ‘policiais’ preferi dar um tempo, desintoxicar. Do que havia à minha disposição, escolhi o livro do Michel. Que sorte!!!
Tudo que sei sobre o diário.
O livro é escrito como fosse um diário (não se precipite, é diferente de tudo o que você já leu), o protagonista numa espécie de auto-avaliação que parte desde a lembrança de um fato que marcou sua vida na adolescência alterando (será?) o curso da sua história. Trata daquelas recordações que acompanham as pessoas e as transformam, positiva ou negativamente, e é tão dolorosamente verdadeiro que é impossível o leitor não terminar, ele próprio, seguindo pelo mesmo caminho.
Suas lembranças surgem por um emaranhado de motivações, aparentemente desconexas e mal relacionadas com o passado do avô e do pai, que aos poucos vão desfiando para terminar em um único e belo cordão. Tudo ali é ligado, tudo ali é uma coisa, sem justificação, explicação, expiação, redenção, são o que são, porque foram o que foram, e continuarão a ser.
 E não trata apenas daquele homem, daquela família e do seu legado. ‘Diário da queda’ avança, com franca honestidade, sobre o que todos humanos somos, como chegamos até ali, para concluir que ainda assim é possível se transformar e continuar sendo o que se é.
Nota final.
Um grande livro, bem pensado, bem executado, bem publicado, com a incrível capacidade de envolver, sensibilizar, convencer, emocionar, fazer refletir, um livro difícil de esquecer. O melhor livro que li esse ano, e que dificilmente será superado. Presença certa nas listas de prêmios de 2011 (espero) e que passou a representar para mim, como aspirante a autor, o marco definitivo que ‘a queda’ descrita, exumada, examinada, periciada, avaliada, analisada, foi para o seu protagonista.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

HUMILDADE


Depois do exercício da crítica (esse muito fácil), vem o exercício da humildade. Nos últimos meses tenho me colocado na confortável posição de criticar obras literárias apontando equívocos, segundo meus critérios subjetivos de leitor, e acertos. Indicando e comentando obras, algumas conhecidas outras nem tanto, sem dizer uma única palavra a respeito da minha atividade (quase secreta) de escrever ficção.
Bom, chegou a hora de me submeter à avaliação de outros ‘críticos’. Estou inscrito em um concurso literário que possui duas fases. A primeira depende de votação popular pela internet, basta um clique no link abaixo e você pode dar sua nota. A segunda, após apuração das obras mais votadas, é a submissão dessas obras pré-classificadas pela votação a um corpo de jurados especializados.
Sendo assim, peço sua ajuda. É rápido, indolor, não tem cheiro e não solta as tiras. Basta clicar no link abaixo e votar. Vamos lá, tá esperando o que?!?!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Crítica à crítica


Hoje quero desviar o foco. Não vou comentar nenhum livro, sim uma coluna que li ainda agora, no blog da Companhia das Letras. A coluna é escrita mensalmente pelo jornalista e escritor gaúcho Michel Laub. E é uma pérola. O link está no final do texto.
A verdade é que terminei de ler o último romance de Michel: ‘O diário da queda’, recentemente lançado pela CL, e minha vontade era (ainda é) resenhá-lo. Motivos pessoais, contudo, me tomam tempo capaz de impedir que me dedique à resenha no momento.
Tenho a sorte de compartilhar a amizade de Michel Laub (ainda que virtual) em um desses milhares de sites de relacionamento e, apesar de não conhecê-lo pessoalmente, posso afirmar que é um sujeito simpático, atencioso, além de um escritor raro. A coluna que me motivou a escrever agora discorre sobre ‘crítica literária’ e por esse motivo, resolvi me empenhar em comentá-la.
A proliferação de blogs dos mais variados temas abriu espaço para qualquer pessoa escrever o que pensa, sobre o que desejar, no momento em que desejar, franqueado suas ideias, sentimentos, pensamentos, expondo seu cotidiano, suas relações, sua formação, e também criticando ideias, sentimentos, pensamentos, cotidianos, relações e formações alheias, manifestações artísticas, culturais, políticas, as mais variadas. É uma corredeira que se inicia e encerra no mesmo ponto, por assim dizer: Eu escrevo um texto, publico, divulgo, outros lêem, resenham, criticam, para que outras pessoas leiam, critiquem, indiquem, para que eu volte a escrever novos textos que serão, lidos, relidos, criticados. Uma enxurrada sem freio. Nessa enxurrada me insiro até com algum atraso. Faz pouco tempo comecei a escrever através de blogs.
Se há um lado positivo, esse pode ser sintetizado pela possibilidade quase gratuita de expor sua criação ou suas ideias (sejam elas quais forem) a um número indefinido de pessoas, dependendo exclusivamente de sua rede de amigos, do interesse pela área a que se dedica, do alcance de suas palavras, etc.
Há, também, um lado negativo. Escreve-se, muitas vezes, sem critério, por amizade, por vaidade (talvez o ponto central da coluna escrita por Michel), necessidade de ser ouvido, necessidade de demonstrar capacidade intelectual, e por aí vai, o que termina por aniquilar o que a crítica possui de mais útil: Ajudar não apenas consumidores de cultura a optar por uma manifestação artística específica, mas a construir uma obra sólida, fortalecer a carreira de um artista (e aqui não falo de louros gratuitos, uma vez que criticas severas podem muitas vezes orientar um escritor, pintor ou compositor, ao passo que elogios banais podem ser a última pá de cal sobre sua obra), ampliar o alcance de uma obra.
Acredito que compreendi a mensagem do escritor, e como venho praticando o exercício da crítica há alguns meses, a li com olhos de aluno. A crítica não deve ser aplicada como instrumento de auto-engrandecimento, jamais deve ser uma tentativa grotesca de demonstração de cultura, um arroto de vaidade. A crítica é, antes de tudo, um ingrediente que se soma à manifestação artística a que pretende aclarar. Um meio de somar forças na construção de um quadro cultural único, sólido e positivo, compartilhando impressões, sentimentos, ideias.
Escrevi esse texto para todos que praticam o exercício da paciência ao ler minhas palavras, mas especialmente aos colegas que, como eu, dedicam algum tempo da sua vida resenhando e criticando o trabalho árduo dos outros (seja para dizer que gostou, seja para dizer que odiou o último livro que leu), e para lembrar que de vez em quando é válido observar o que nós mesmos temos produzido, dito, sentido, pensado, idealizado, realizado, etc.

O link para a coluna é: http://www.blogdacompanhia.com.br/2011/05/ainda-sobre-escritores-e-critica/#comments

sábado, 14 de maio de 2011



Cotação: §§§
Livro: A Guimba
Autor: Will Self
Editora: Alfaguara

331 páginas

Assim como ‘Precisamos falar sobre o Kevin’, comprei esse bom livro pela capa, que faz coçar os mais recônditos bronquíolos dos chatíssimos politicamente corretos. Aliás, antes de falar sobre o livro, quero destacar a esplendorosa edição, capa instigante de alta qualidade, páginas claras com tipagem agradável que facilita a leitura, tradução muito competente de Cássio de Arantes Leite.
Feitas as considerações iniciais, assim como ‘Precisamos falar sobre o Kevin’, não me arrependi da escolha. Não se trata de um romance policial, mas a trama parte de um crime (crime?). Um cidadão anglo, em visita a um país de proporções continentais, antiga colônia de sua nação, decide que já é hora de parar de fumar. Antes, porém, acende seu último cigarro aproveitando aquele prazer prosaico até a última tragada. Quando termina vai até a sacada do seu quarto de hotel e arremessa a guimba que cai acidentalmente no apartamento de baixo, atingindo a cabeça de um senhor de idade avançada. Pronto. O ato, aparentemente irrelevante, dá início a uma odisséia épica inacreditável.
O tabagismo sofre restrições graves no país e até mesmo o ato de fumar em local privado é vedado. Arremessar a guimba imprudentemente contra uma pessoa, então, é crime grave. E o sujeito, chamado Tom Brodzinski, é acusado de tentativa de homicídio e submetido aos rigores da Lei local. Com o tempo percebe-se que os motivos reais que levaram o atrapalhado gringo ao banco dos réus são muito mais relevantes do que se supunha.
O livro lembra muito ‘O Estrangeiro’ de Camus, escola nitidamente seguida pelo autor inglês que se lastreia numa história de absurdos e numa aventura fantástica em que o protagonista deve percorrer todo o país para expiar sua culpa por meio de um acordo judicial bastante suspeito.
Os personagens são soberbamente elaborados e o leitor se pergunta várias vezes não se aquele amontoado situações esdrúxulas são verossímeis, e sim como tudo aquilo pode ter surgido na cabeça do escritor.
A nota negativa fica por conta da longa narrativa (na minha opinião a epopéia poderia ser mais enxuta), que não compromete, no entanto, a qualidade do texto. A leitura é uma viagem longa, como aquelas que você fazia com seus pais quando era criança e insistia em perguntar se já estavam chegando. Mas a recompensa ao final é a mesma da chegada à casa de praia, com a vantagem de que você vai repensar seriamente o (mau) hábito do fumo.