Boas vindas

Seja bem-vindo, caro leitor/escritor. Ler faz bem à saúde - física e mental. Sabendo disso, obrigo-me a tomar cavalares doses diárias de leitura. Como tudo que é exagerado faz mal, preciso eliminar parte desse remédio para manter meu organismo saudável. Não há pâncreas que produza qualquer enzima capaz de catalizar a leitura, ou fígado capaz de ajudar a excretar o excesso. O melhor tratamento, descobri, é escrever. Crimine Liber, portanto, tem a nobre e terapêutica missão de aliviar a pressão provocada pelas doses de leitura, além de fazer despejar aquilo que meu organismo absorveu de melhor ou pior dos livros que li, tenho lido ou vou ler. Espero que você aprecie!!!

sábado, 14 de maio de 2011




Cotação: §§§§
Livro: A Intimação
Autor: John Grisham
Editora: Rocco

283 páginas

John Grisham teve seu primeiro romance publicado no ano de 1989 (Tempo de Matar), portanto há vinte e dois anos. Nesse período lançou nada menos que vinte e quatro obras, muitas das quais foram transportadas para as telas do cinema (A Firma, Dossiê Pelicano, O Júri). Quase na metade desse trajeto escreveu ‘A Intimação’.
O curioso desse romance policial, para quem acompanha a carreira do autor americano, é perceber que Grisham retoma, em 2002, o mesmo vigor de suas primeiras publicações. A ambientação jurídica é mantida, e sempre será (com exceção de Nas Arquibancadas, pelo que sei), mas de forma menos ostensiva. A trama é simples, como seu desfecho. No entanto, é tão bem costurada que leva o leitor a desconfiar de tudo e de todos até o final.
Um bem sucedido professor de direito Ray Atlee é intimado por seu pai – um juiz aposentado e doente que mora em uma pequena cidade do estado do Mississipi - a comparecer a uma reunião de família em que pretende definir a repartição e a administração de seu espólio após sua morte. Quando o advogado chega à velha mansão da família encontra o pai morte, além de dezenas de caixas de papel de carta que escondem uma fortuna milionária em espécie.
Sem saber o que fazer com o dinheiro, Ray resolve guardá-lo até descobrir sua origem. Não conta a descoberta a ninguém, nem ao velho advogado que cuidará do inventário, nem a seu problemático irmão, viciado em todo tipo de droga. A partir daí, passa a receber cartas com ameaças, que se transformam em perseguição, que levam a um final no mínimo incomum. E bastante divertido (sei que a palavra não combina com o gênero, mas é exatamente a sensação que tive ao terminar o livro).
Grisham mantém o tom levemente crítico às normas e ao sistema legal americano, em especial ao sistema judiciário do Mississipi, seu estado natal, provinciano, atrasado e cheio de brechas capazes de permitir a qualquer pessoa com um bom advogado alcançar seus objetivos, sejam eles quais forem.
Uma leitura suave e ligeira, ‘A intimação’ é um livro que diverte sim, ao mesmo tempo em que instiga os aficionados por uma boa trama policial. Vale destaque, enfim, o belo trabalho da editora Rocco, com uma publicação caprichada, bem como o trabalho correto de Aulyde Soares Rodrigues, pela tradução sem devaneios (o que é cada vez mais raro).



Cotação: §§§§§
Livro: Vento sudoeste
Autor: Luiz Alfredo Garcia-Roza
Editora: Companhia das Letras

210 páginas

Minha admiração por Garcia-Roza não é segredo para as pessoas que convivem comigo, ou com as quais de vez em quando converso sobre literatura. A elegância da escrita, as tramas bem engendradas, os personagens bem construídos por forte influência de sua excelência na área da psicanálise me encantam. Daí que foi para mim uma surpresa esse ‘Vento sudoeste’. Digo isso porque não esperava mais me surpreender com a obra do autor, julgava-me um leitor experiente de seus romances, e descobri que ainda há muito que conhecer.
Nesse livro vê-se um Delegado Espinosa amadurecido (em contraponto a ‘O silêncio da chuva’ – primeira obra de ficção do autor), não como homem, não como policial, mas como personagem mesmo. Revisando a obra do autor o delegado parece sofrer uma virada, é nesse romance inacreditavelmente ousado e original que Espinosa faz por merecer sua entrada triunfal no hall dos celebres investigadores de tramas policiais, sentando-se ao lado de Marlowe, Scarpetta, Poirot, Maigret, dentre outros.
O livro, no entanto, é mais do que um palco para o astro principal brilhar (personagens como Gabriel, D. Alzira e a entrada de Irene na vida do delegado merecem destaque). Todos os elementos do romance policial clássico são utilizados com maestria acorrentando o leitor ao livro. A história surpreende pela originalidade e começa com a improvável confissão antecipada de um homicídio. Um jovem atormentado por um vaticínio procura Espinosa para contar que antes de seu próximo aniversário deverá cometer um assassinato. Não sabe o nome da vítima, não sabe quando ou onde o crime será cometido, tampouco os motivos que o levarão a cometê-lo. Sabe apenas que irá acontecer e o tempo corre a favor da predição.
A ‘confissão’ é ponto de partida para uma complexa cadeia de acontecimentos que levam os atores a um final digno de aplauso. Sim, no final já sem fôlego a única coisa que me restou foi levantar e aplaudir (uma cena que minha esposa jamais vai esquecer) o maior autor brasileiro de romance policial na atualidade.

terça-feira, 12 de abril de 2011

O Homem Magro



Cotação: §§§§
Livro: O Homem Magro
Autor: Dashiell Hammett
Editora: Companhia das Letras

260 páginas

Você não precisa conhecer a fundo a história de Samuel Dashiell Hammett (1894-1961) para se interessar por seus livros. Basta saber que foi casado por trinta anos com Lillian Hellman (escritora e dramaturga estadunidense), serviu na Primeira Grande Guerra e dentre as algumas atividades que ocuparam sua vida peculiar, trabalhou como detetive particular em uma renomada agência de Nova Iorque. Ou seja, tinha muitas histórias interessantes para contar.
Resolveu, então, começar a escrever romances policiais e dentre algumas de suas pérolas literárias está O Falcão Maltês. Noir como poucos, seus livros são recheados de humor refinado e personagens fantásticos.
Nesse saboroso ‘O Homem Magro’ de 1933 o autor carrega o leitor até o universo conturbado, clandestino e de baixa auto-estima da Nova Iorque do período pós-crise de 29 e o brinda com o invejável (sob quase todos os aspectos) casal Nick e Nora Charles: Ele, um brilhante ex-detetive que deixou a profissão depois de se casar com ela, herdeira de uma fortuna.
Em visita à ‘cidade que nunca dorme’ para as festividades de fim de ano o ex-detetive se vê envolvido em uma história do desaparecimento de um velho conhecido e da morte de sua secretária. Evitando maiores contatos com o caso, Nick é empurrado pela força das circunstâncias.
Segue-se uma trama de mistérios em que os personagens surpreendentes vão se apresentando, desde o tenente durão da polícia de Nova Iorque, até os piores escroques. Outras mortes vão acontecendo e tudo leva a crer que, cada cadáver tem a importante missão de ocultar a morte que a antecedeu.
Por se tratar de um romance escrito há cerca de oitenta anos o leitor pode pensar que se trata de um livro datado, o que não é verdade. Além do clima instigante da cidade numa época bastante singular, o autor trata de temas absolutamente atuais como relacionamentos fora do padrão, comportamentos inescrupulosos, violência policial, e por aí vai. Tudo com muita leveza e a dose certa de humor.
Destaque para o espirituoso casal protagonista (daqueles personagens que jamais podem ser esquecidos) que a todo o momento está servido de algum drinque e para a objetividade do texto. A cidade, mesmo em seus pontos obscuros, é pintada com cores charmosas e também pode ser considerada uma personagem importante da trama muito bem articulada.
Do autor, mais uma curiosidade, participava de um grupo de intelectuais formado por gente não menos interessante como Ernest Hemingway, John dos Passos e Arthur Miller que se uniu, dentre outras coisa, no combate ao nazismo.
Quem já leu Hammett entende o que estou falando. Quem nunca leu deveria correr até o padre e se confessar. A penitência não será das mais pesadas, provavelmente alguns padre-nossos, algumas ave-marias e a leitura obrigatória de ‘O homem Magro’, para entrar no Reino dos Céus.

sábado, 19 de março de 2011

Em Risco



Cotação: §§§
Livro: Em Risco
Autor: Patrícia Cornwell
Editora: Companhia das Letras
146 páginas


O que mais me surpreendeu nesse bom romance da dama do crime norte-americana, não foi bem a trama, que, aliás, não é má, mas sim alguns dos personagens. O detetive blasé Win Garano, a Promotora Monique Lamont e principalmente a avó do detetive, a bruxa boa Nana. Todos têm personalidade suficiente para fazer o livro merecer ser lido.
A leitura é rápida e muito agradável, um livro para ser lido na praia, ou no metrô. O léxico simples – e aqui bato palmas para o tradutor Rafael Mantovani também – aproxima o leitor da história que se passa em ao menos duas cidades diferentes – Boston e Knoxville, no estado do Tennesse.
Por iniciativa da promotora Lamont o governador do estado de Massachusetts põe em prática uma nova política de combate ao crime que chamam ‘Em Risco’, coordenada pela própria promotora, com o lema: ‘Qualquer crime, Ontem, hoje ou amanhã’, que pretende solucionar casos do passado valendo-se das mais modernas tecnologias de investigação.
Trata-se de uma jogada notoriamente política já que tanto o governador, quanto a promotora pretendem concorrer ao cargo do primeiro nas eleições que se aproximam. Cada um tentando passar a perna no outro. Lamont, muito espertinha, chama para integrar sua equipe o mais competente dos investigadores de Boston, Win Garano, que no momento está sentado nas cadeiras da Academia Forense Nacional, na cidade de Knoxville.
Não por acaso o crime escolhido para dar início à nova política ocorreu na cidade do Sul onde Garano está freqüentando o curso. O desenrolar da história, contudo, sai do controle de todos, e revelam as verdadeiras intenções daqueles que se achavam manipuladores, mas se descobrem marionetes, culminando num crime aviltante em que a própria promotora é vítima.
Há um leve clima noir, bastante agradável e a cadeia de acontecimentos é bem amarradinha, mas alguns clichês – como o detetive irresistível, soluções de caso pelo indefectível DNA, etc – se não chegam a comprometer o romance ao menos deixam a certeza de que, na realidade esses avanços tecnológicos são uma pedra no sapato dos escritores, que não conseguem se livrar de algumas marcas do passado – o detetive comedor, mas têm que se adaptar aos novos tempos – o famigerado exame de DNA.
Por fim, de positivo ainda vale destacar que o livro é narrado no presente, o que achei muito interessante e o distancia do lugar comum.
O conselho, então, é o seguinte: Se você vai sozinho (a) à praia, se você pega o metrô para ir para o trabalho, se você gosta de deitar numa rede sem pegar no sono, esse livro é uma boa companhia.

A Forma da Água




Cotação: §§§§
Livro: A Forma da Água
Autor: Andrea Camilleri
Editora: Record – Coleção Negra
141 páginas


Se imaginássemos uma reunião do sindicato dos detetives particulares e investigadores célebres de romances policiais, entre Poirot, Holmes, Maigret e Espinoza, certamente lá estaria também o sarcástico e inteligente comissário Montalbano apreciando um belo prato de frutos do mar.

Andrea Camilleri, seu criador é atualmente, se não o maior, um dos maiores sucessos literários da Itália e seu personagem, sem dúvida, um dos mais instigantes e charmosos investigadores de romances policiais que já ganharam as páginas de um livro. Nesse ‘A Forma da Água’, o personagem ganha vida (é o romance em que surge o comissário) numa trama muito bem engendrada e ao mesmo tempo simples – o que se demonstra com o desenvolvimento do livro.

Tudo começa quando dois lixeiros encontram o cadáver de um eminente cidadão de sua cidade dentro de seu carro, abandonado em um lugarejo afastado frequentado por prostitutas e drogados. Assustados, fazem contato com o amigo mais próximo do sujeito, um importante advogado, que parece não se importar com o fato e ordena que a dupla informe sua descoberta a polícia, aí o célebre comissário entra em cena.

A investigação é bastante controversa, já que aparentemente a morte tem causa natural, mas o que vai se apresentando é uma complexa cadeia de interesses políticos e segredos privados escusos dos cidadãos mais importantes da pequena cidade siciliana. Apoiado nas descobertas do seu principal personagem, o autor pode despejar sobre o papel todas as convicções, desilusões e desencantos que guarda a respeito de sua cidade natal e da própria Sicília.

Vale destaque, ainda, o grande valor que o autor dá à gastronomia, e os pratos devorados pelo comissário são um espetáculo à parte, enchem o leitor de curiosidades que transcendem a pura literatura. A nota negativa fica por conta da tradução e revisão, que deixaram escapar alguns erros tolos, mas não contaminam a belíssima obra de Camilleri.

A minha sugestão, portanto, é que você prepare um bom espaguete com frutos do mar, sirva uma taça de vinho branco para acompanhar esse romance delicioso.