Boas vindas

Seja bem-vindo, caro leitor/escritor. Ler faz bem à saúde - física e mental. Sabendo disso, obrigo-me a tomar cavalares doses diárias de leitura. Como tudo que é exagerado faz mal, preciso eliminar parte desse remédio para manter meu organismo saudável. Não há pâncreas que produza qualquer enzima capaz de catalizar a leitura, ou fígado capaz de ajudar a excretar o excesso. O melhor tratamento, descobri, é escrever. Crimine Liber, portanto, tem a nobre e terapêutica missão de aliviar a pressão provocada pelas doses de leitura, além de fazer despejar aquilo que meu organismo absorveu de melhor ou pior dos livros que li, tenho lido ou vou ler. Espero que você aprecie!!!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O filho eterno




Cotação: §§§§§
Livro: O filho eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Record

222 páginas

Todos nós conhecemos a sensação de um dia, subitamente, acordarmos e deparamos com uma imagem desagradável no espelho. Com uns é mais frequente, com outros, menos. Pois essa sensação me assaltou quando li a última das 222 páginas de ‘O filho eterno’, e no curso de cada uma delas também.
O livro, vencedor de inúmeros prêmios (Jabuti, São Paulo, Portugal-Telecom, entre outros), foi o meu espelho e, mesmo feia a imagem, passo a defendê-la, ou justifica-la, ainda que aos tropeços, como faz o narrador. Talvez defender o pai egoísta (?) que renega, ou tenta renegar, até o último argumento uma verdade inafastável, seja defender a mim mesmo. Talvez o seu egoísmo e o seu cinismo diante da realidade simples, mas cruel, seja o meu. Não sei, mas o impulso é inevitável.
De tudo, o que restou da minha imagem feia diante do espelho foi a verdade; algum dia acordamos e notamos que o cabelo está despenteado e babamos a noite toda, estamos (somos) feios. O livro de Tezza me tirou do sono (sonho) profundo e me pôs diante do espelho, e serei eternamente grato a ele por isso.
Da história basta saber que um homem (no início do livro ele ainda não é um pai) espera pelo primeiro filho. Ele imagina o filho perfeito como imagina a si próprio e conclui que um filho é aquilo que esperamos do filho, portanto, seu caminho está traçado. Mas não é. Seu filho tem Síndrome de Down e, a partir dessa notícia, a vida que levava deitado sobre uma cama de ilusões muda de perspectiva. O colchão fura e o ar do idílio dá lugar aos tijolos da realidade.
Tudo gira em torno de como o pai vê o filho e sua importância e a importância da Síndrome em suas vidas que vão seguindo impossíveis de ser freadas, ou alteradas. Suas frustrações começam a aflorar amontoando-se uma sobre uma e, amadurecendo o pai, começamos a perceber que não se trata de egoísmo, e sim de insegurança, frustração, o medo do tal espelho. Não se trata de crueldade, e sim do desespero de descobrir que as coisas jamais poderiam ser o que não foram (como teoriza o próprio pai ao longo de todo o livro) e isso incomoda. Trata-se de acordar e notar que seu rosto (pelo menos às vezes) é mais feio do que você supunha e isso machuca.
Em certos momentos tive a impressão esquizofrênica de que o autor invadiu minha cabeça e descobriu alguns dos meus segredos inconfessáveis, angústias e inseguranças que parecem uma marca de nascença contra a qual não há cirurgia de remoção. Acho que isso não aconteceu, mas é tão impressionante a sinceridade com que a narrativa se desenvolve que sua qualidade está nisso, e a difere da maioria dos livros, é uma história verdadeira, sob muitos aspectos, e por isso é tão profunda, tão relevante.
Lembro alguns livros que foram importantes na minha vida (alguns segredos inconfessáveis): O pequeno príncipe, O menino maluquinho, As aventuras de Tom Sawyer, O piano e a orquestra, Antes do Baile Verde, O estrangeiro, 1984, Libertinagem & Estrela da Manhã, O Cortiço. Todos em momentos e por motivos diferentes, não mudaram, mas ajudaram a construir o que eu sou e ‘vim sendo’. ‘O filho eterno’ entra nessa galeria pessoal, e a partir dele enxergo outro rosto no espelho.

Lado B - Histórias de mulheres




Cotação: §§§§
Livro: Lado B - Histórias de mulheres
Autor: Lúcia Facco
Editora: Edições GLS

98 páginas
 

Você já leu algum livro de temática gay? Não? Então deixe o preconceito de lado e comece por esse delicioso livro de contos. São doze pequenas histórias das quais se pode dizer, no mínimo, agradáveis. Um álbum com ‘fotografias’ quase comuns e, por isso, belas do cotidiano de mulheres homossexuais.

Não é panfletário, 'catequizador' ou cômico, embora suas personagens em alguns momentos possam ser. Não se busca nas narrações nada além de mostrar a normalidade evidente de um ‘comportamento’ tão contestado (ainda?!?!), quanto antigo.

E vai-se passeando por vidas comuns com boas histórias, e algumas tão comuns que a ‘opção’ sexual torna-se irrelevante (são pessoas como você, vivendo histórias que você poderia viver). Certo, em alguns casos a sexualidade é a pedra fundamental sobre a qual se constrói uma grande casa. Mas em outros, não. Essa é a maior qualidade do livro, Lúcia Facco conseguiu conceber contos (que não gostaria de rotular como literatura lésbica, mas de fato é) com uma naturalidade de quem viveu os conflitos, o preconceito, a estranheza alheia, e vive a normalidade, os desafios, as barreiras de um homossexual no moderno-atrasado mundo contemporâneo.

Dessas bonitas ‘Histórias de mulheres’ extrai o que mais importa que é a vida por ela mesma, seja você hetero ou homo, e suas dúvidas, aventuras, segredos, recompensas, amores, desilusões, sucessos, decepções.

De todos os doze contos alguns sobressaem como merecedores de vivas; aplausos empolgados. Natureza Viva é um deles.

O conto, que eu classificaria (porque classificar alguma coisa?) como realismo fantástico, é dos melhores contos que li ultimamente, se não o melhor. Nele, o homossexualismo é um fio que surge de uma experiência visual interessante e puxa toda a falsa impressão de normalidade na vida da protagonista que até então se pensa heterossexual. O clima é um tanto sombrio e a tensão é crescente, até o final revelador e não menos fantástico que toda a ilusão (será?) vivida por Raquel. É suspense em essência, se você compreender por suspense algo que te deixa à espera, em suspenso, por um tempo, até te derrubar.

Outra história digna de prêmio é ‘De mel de melão’. Curtinho, por isso uma resenha detalhada seria um belo spoiler. O que posso dizer é que se trata de uma narrativa comovente, que mexe muito com o leitor armado, preparado para encontrar nesse livro algo que imagina deslocado, fora da rota comum. É um soco no estômago do conceito pré-elaborado. Lindíssimo e emocionante, choca (pelo menos a mim) não pela história que, garanto, todos conhecemos (não por ouvir falar), mas por fazer notar que por mais escondido que seja o preconceito está sempre ali, como um vírus em quarentena para aflorar quando menos se espera, já que o final é diametralmente oposto àquilo que se imagina e revela a nós mesmos (leitores) quem realmente somos.

Por último (apenas para não alongar a resenha), tem ‘Diário’. Conto que integrou o premiado livro ‘Todos os sentidos: contos eróticos de mulheres’ (Prêmio Alejandro J. Cabassa da União Brasileira de Escritores como melhor livro de contos de 2004). Notável ao narrar a história de uma mulher viúva, mãe de família, com uma vida estabilizada que aos poucos se descobre homossexual e, partir daí, começa a narrar suas aventuras (reais ou ilusórias você deverá descobrir) em um diário, e que aventuras! Tem o tom mais ficcional que biográfico e, na minha opinião, daria um excelente filme de Almodóvar.

Outros bons contos que poderiam ser aqui resenhados são ‘Chuva’, ‘Triângulo’, ‘Vida’, ‘Ausência’, enfim, qualquer um deles, que são todos muito atraentes em suas diferenças.

Aconselho a todos que conheço a ler o agradável ‘Lado B – Histórias de mulheres’, sem medo, afinal homossexualismo não é uma doença, não é contagioso, é comum, é normal, ou então se conforme em perder uma grande leitura somente porque você é um(a) fresquinho (a).

Dois irmãos



Dois irmãos


Cotação: §§§§§
Livro: Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras

266 páginas
 
Dois Irmãos é um daqueles livros que te dá orgulho de saber ler; faz você agradecer eternamente a ‘tia’ do CA pelos ensinamentos da alfabetização. Publicado em 2000 e laureado com o Jabuti, é considerado por muitos o melhor romance da década passada, o que não é exagero.
Somos – muitos de nós – movidos por informações valiosas a respeito daquilo a que pretendemos nos entregar. O consumo, as amizades, o emprego, até mesmo o amor, quase sempre dependem de informações positivas acerca daquilo que pretendemos ‘possuir’. Com a leitura não é diferente. Daí que, quando comecei a ler comentários elogiosos sobre ‘Dois irmãos’ fiquei com uma vontade incrível de ler o livro, mas não li; estava em outra onda.
Passaram muitos anos até que voltei a ler a seu respeito em colunas e blogs, já não mais falando de um grande livro, mas sim a respeito do livro da década. Não resisti e me entreguei, para minha própria sorte.
O livro trata da saga de uma família de imigrantes libaneses que começa a fincar raízes no Brasil, precisamente em Manaus (terra natal do autor), e esse é o primeiro ponto interessante: o autor trata com precisão o choque cultural que forja a identidade familiar a partir das muitas experiências vividas por um jovem caixeiro libanês e uma jovem filha de comerciante que se apaixonam vorazmente.
Desse amor imenso se espera tudo de melhor, a partir de uma entrega comovente dos amantes. No entanto, o que seria uma consequência natural da sua união – os filhos – se torna a grande marca divisora de sua paixão, começando pela relutância do jovem caixeiro em ter filhos.
O nascimento dos primeiros filhos – gêmeos – é o ponto de virada de uma história, que poderia levar o nome do pai, o nome da mãe, o nome dos filhos, da filha, do narrador, ou sua mãe (uma cunhatã que presta serviços à família), dada a profundidade da investigação sobre a família, em que cada um dos personagens é examinado à exaustão, expondo suas motivações, expectativas, personalidades, vivências...
O duelo épico e eterno entre os gêmeos que se odeiam – assaltando Nelson Rodrigues: desde quarenta minutos antes de serem concebidos -, porém, marca tão decisivamente essa família ao mesmo tempo atípica e comum, que a escolha do nome é perfeita.
No tom quase documental-biográfico da obra não há certo ou errado, não há julgamento de valor, preferências (exceto a do narrador, mas esse também é um personagem), apenas uma exposição de fatos e motivos que vão se sucedendo e explicam a cada novo parágrafo o ódio recíproco dos irmãos.
Daí que a família vai atravessando meio século esfarelando o que havia de bonito no amor primordial dos pais para chegar ao final sem uma única sobra do que havia antes. Tudo visto sob a perspectiva de uma criança que, ao final já é um adulto em busca da verdade sobre si mesmo, sua própria identidade.
Personagens como Halim (o pai), Rânia (a irmã) e Domingas (a cunhatã) tentam roubar a cena (são perfeitos!), que ao final fica mesmo com os gêmeos Yaqub e Omar e suas diferenças essenciais. O primeiro introspectivo e renegado, o segundo mimado e impulsivo, de personalidades opostas e confrontantes que levam ao limite máximo o ódio com que presenteiam o outro.
Se é o melhor livro da década passada, não sou capacitado para responder. Mas, certamente, é dos melhores livros que li nas últimas três décadas, desde que aprendi a ler com a tia... como é mesmo o nome dela? A ingratidão é imperdoável.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Dom do Crime



Cotação: §§§§
Livro: O Dom do Crime
Autor: Marco Lucchesi
Editora: Record

155 páginas






Não sou um estudioso das letras; longe disso. Sou um aspirante a escritor que gosta de ler. Não conheço os pilares da obra de Machado, tampouco sei avaliar tecnicamente cada um de seus romances, contos, crônicas... o que sei, ou melhor, o que gosto de fazer acerca dos livros que li é emitir opinião; apenas isso; procurando ser o mais simples e honesto possível.

Isso nada importa a quem, por lapso, termina nas páginas desse blog, eu bem sei. Mas é necessário escrevê-lo antes de abordar o grande romance sobre o qual me debrucei nas últimas semanas, porque O Dom do Crime não é um romance qualquer. É, antes, uma grande obra de um grande autor brasileiro, por quem o Bruxo certamente nutriria grande simpatia.

Não zarpei em pesquisas pela internet para descobrir se de fato o crime da Rua dos Barbonos aconteceu, em 06 de novembro de 1866. Sinceramente, isso pouco me importa. O que vale é a ‘audácia’ de Marco Lucchesi, que esculpe uma elaborada trama para relacionar o tal crime (narrado no livro) à obra mais famosa de Machado de Assis: Dom Casmurro.

Com inventividade elogiável, Lucchesi escreve pelas penas de um anônimo contemporâneo de Machado, que insiste em manter o anonimato e a quem, segundo o próprio autor, não se pode dar crédito. É precisamente esse jogo entre os autores (o da ficção e o da obra) e a ‘autoria’ que dá gosto ao romance.

Em forma de relato diário do julgamento de um crime que provocou comoção na Corte Imperial no final do século XIX, o autor (ou os autores) disseca não apenas o comportamento social da época, como também vai apresentando pontos comuns entre o crime e a história de Bentinho, Capitu e seus pares. E esses pontos são muitos e estreitos.

Mas isso também pouco importa, sua maior virtude é manter a dúvida imaculada, manter-se imparcial acerca do comportamento dúbio (será?) de Capitu ou de Helena Augusta (essa a vítima do crime ‘real’).

E vai extraindo trechos de obras, comparando, misturando, acrescentando tantas e tantas informações que ao final obras, autores, ficção, realidade estão tão condensados que se tornam uma única coisa.

Ressalte-se o tom irônico, beirando o cínico (do próprio autor), que impregna o texto com um humor refinado o qual somente grandes autores alcançam.

Eu, por mim, que como disse não sou estudioso ou entendido, mas gosto de emitir opinião, permaneço com a mesma: se o Bentinho é corno ou não, não sei dizer. Mas que ele merecia, merecia.

Marco Lucchesi é Imortal e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2011, na categoria romance de estréia com O Dom do Crime.